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Este microbook é uma resenha crítica da obra:
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Editora: 12min
Você reparou no que acontece toda vez que um técnico anuncia a lista para uma Copa do Mundo? A imprensa olha pros craques. O torcedor olha pros craques. As capas de revista, as figurinhas, as apostas online, tudo aponta pra meia dúzia de nomes que vão decidir o torneio. Mbappé, Vinícius, Bellingham, Lautaro... a lista varia a cada ciclo, mas o roteiro é sempre o mesmo.
E aí a história entra silenciosamente pela porta dos fundos e desmonta o roteiro.
A poucas semanas da Copa do Mundo de dois mil e vinte e seis, disputada nos Estados Unidos, México e Canadá, e com as listas oficiais saindo uma a uma, vale lembrar uma coisa que o futebol já provou pelo menos cinco vezes: as Copas frequentemente não são decididas pelos nomes esperados. Elas são decididas por um sujeito que, semanas antes do apito inicial, ninguém apostaria um centavo.
Esse Radar reconstrói cinco dessas histórias. Não pra romantizar o azarão... mas pra entender por que isso acontece, o que esses casos têm em comum, e o que dá pra fazer com essa informação numa Copa que está prestes a começar.
Geoff Hurst chegou à Copa da Inglaterra como o quarto, talvez quinto centroavante na cabeça do técnico Alf Ramsey. Tinha cinco jogos pela seleção e um único gol marcado. O titular incontestável era Jimmy Greaves, um dos goleadores mais prolíficos do mundo na época.
Greaves se machucou contra a França no fim da fase de grupos. Hurst entrou nas quartas, marcou o gol da vitória sobre a Argentina, deu a assistência do segundo de Bobby Charlton contra Portugal, e Ramsey tomou a decisão mais polêmica da campanha: manteve Hurst no time mesmo com Greaves recuperado para a final.
Hurst marcou três gols no quatro a dois sobre a Alemanha Ocidental. É até hoje o único hat-trick numa final de Copa do Mundo. Detalhe que dá medida da loucura: ele só se deu conta de que tinha feito três gols no banquete daquela noite. Achava que o juiz tinha apitado antes do último chute, e por isso nem se deu o trabalho de pegar a bola como lembrança.
Paolo Rossi voltou a jogar futebol em maio de oitenta e dois, três semanas antes do início da Copa. Vinha de uma suspensão de dois anos por envolvimento no escândalo de manipulação de resultados conhecido como Totonero. Não era titular de nada. Estava fora de forma. A imprensa italiana inteira pediu cabeça do técnico Enzo Bearzot por insistir nele.
Nos três primeiros jogos da Copa, Rossi confirmou as críticas. A Itália empatou contra Polônia, Peru e Camarões. Avançou em segundo no grupo só por ter feito mais gols que os Leões Indomáveis.
Aí veio o despertar. Hat-trick no Sarriá, em Barcelona, no jogo que eliminou a Seleção brasileira de Zico, Sócrates e Falcão, considerada por muitos a melhor que nunca foi campeã. Gol contra a Polônia na semifinal. Gol na final contra a Alemanha Ocidental. Rossi terminou com a Chuteira de Ouro, a Bola de Ouro da Copa e o Ballon d'Or no mesmo ano. É o único homem na história do futebol masculino a ganhar os quatro prêmios dentro do mesmo calendário.
Salvatore Schillaci tinha exatamente uma partida pela seleção italiana quando o técnico Azeglio Vicini o levou para a Copa em casa: a estreia, num amistoso na Suíça, dois meses antes do torneio. Era o terceiro ou quarto atacante na hierarquia, atrás de Vialli, Carnevale e Roberto Baggio. Boa parte da convocação dele veio acompanhada de um questionamento velado: por ser siciliano, num país que historicamente trata o Sul como apêndice pobre do Norte rico, muitos consideravam um atrevimento ele vestir a camisa azzurra.
Entrou contra a Áustria substituindo Carnevale aos sessenta minutos, marcou o gol da vitória, e nunca mais saiu. Encerrou a Copa como artilheiro com seis gols, levou a Bola de Ouro de melhor jogador do torneio, e os olhos esbugalhados dele depois de cada gol viraram a imagem definitiva das chamadas Notti Magiche. A Itália acabou em terceiro, eliminada nos pênaltis pela Argentina na semifinal. Mas o nome que sobrou daquele Mundial não foi o de nenhum titular esperado.
Quatro dias depois da estreia, na mesma Copa, o goleiro titular argentino, Nery Pumpido, quebrou a perna num lance contra a União Soviética. Entrou Sergio Goycochea, reserva sem nenhuma pretensão. A Argentina vinha mal, Maradona vinha mal, a campanha parecia condenada.
Goycochea defendeu dois pênaltis contra a Iugoslávia nas quartas. Defendeu mais dois contra a Itália, em Nápoles, na semifinal. Carregou a Argentina até a final contra a Alemanha Ocidental praticamente sozinho nos mata-matas decididos por penalidades. Não terminou com a taça... a Alemanha venceu por um a zero. Mas, fora Maradona, é o nome mais lembrado daquela campanha improvável.
Branco tinha trinta anos, voltava da Itália acima do peso, e em poucos meses do ano da Copa já tinha passado por Grêmio, Fluminense e Corinthians. Era reserva de Leonardo, e cronistas afirmavam que ele era lento demais para conter Overmars, o ponta veloz da Holanda. A convocação dele por Parreira foi uma das mais contestadas de toda a era do tetra.
Leonardo foi suspenso pela FIFA depois da cotovelada em Tab Ramos, na vitória sobre os Estados Unidos. Branco entrou contra a Holanda nas quartas de final, em Dallas. Com o placar empatado em dois a dois e a classificação ameaçada, ele cavou uma falta na esquerda, pediu a bola, e bateu. O chute superou uma barreira de seis holandeses e o goleiro De Goeij, de um metro e noventa e oito. A bola raspou a trave e entrou.
Não parou ali. Na final contra a Itália, Branco bateu o terceiro pênalti do Brasil na disputa que decidiu o tetra. Converteu com tranquilidade. Abriu caminho pra defesa de Taffarel em Massaro e pro chute pra fora de Roberto Baggio que selou o título. Da água benta de Maradona em Roma, em noventa, ao herói de Dallas: quatro anos.
Cinco casos, mesma engrenagem: uma lesão, uma suspensão, uma crise inesperada que tira o titular do caminho e abre a porta. O segundo nome entra sem o peso da expectativa, sem nada a perder, e responde. Cinco vezes deu certo.
A pergunta honesta, porém, é: quantas vezes deu errado? Resposta: muito mais. A história do futebol está cheia de reservas que entraram por acidente e foram engolidos pelo momento. A gente só lembra dos que deram certo... isso se chama viés de sobrevivência. Pra cada Schillaci existem dezenas de atacantes anônimos que tiveram a chance e não fizeram gol nenhum.
Então o aprendizado real não é que reservas sempre brilham. É que Copas do Mundo recompensam quem está em ritmo no momento exato, mais do que quem tem o currículo mais bonito. Forma supera reputação. E forma é uma janela curta.
Três cenários práticos, dependendo de quem você é.
Se você acompanha futebol como torcedor, a sugestão é simples: não pule as listas de reservas quando o seu técnico anunciar a convocação dos vinte e seis. O nome que vai decidir um mata-mata específico provavelmente não está entre os onze prováveis. Pode estar entre os números vinte e dois e vinte e seis. Olha pra quem terminou bem a temporada do clube, não pra quem terminou bem a temporada anterior.
Se você trabalha com cobertura esportiva ou conteúdo, vale duas coisas. Primeiro, monte perfis dos reservas com potencial de gol decisivo logo na convocação, não depois que o gol acontece. A produção fica fria se você só reage. Segundo, evite o reflexo de tratar a hierarquia como destino. Em quatro semanas de Copa, ela pode estar invertida.
Se você analisa o esporte por aposta ou estatística, o ângulo é outro: forma recente bate hierarquia histórica em torneios curtos. Cinco a sete jogos não dão tempo pra um craque fora de ritmo se reencontrar. Dão tempo de sobra pra um suplente em fase boa entrar... e fazer dois gols decisivos. Mercados de prêmio individual costumam errar feio nesse ponto.
E se você não acompanha futebol mas reconhece o padrão em outros lugares: ele se repete. Em equipes de trabalho, em projetos longos, em qualquer arena onde a hierarquia é estabelecida com antecedência e a performance vem depois. O titular nem sempre é quem está pronto. O reserva nem sempre é quem está atrás.
Fechamento
Os técnicos que vão entregar suas listas pra Copa de dois mil e vinte e seis já tomaram noventa por cento das decisões. Os dez por cento que sobram é onde mora o tal herói improvável.
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